quinta-feira, 20 de junho de 2019


Já nasceu viciada em solidão.
 Filha de uma luz única encostada a uma dolorosa sombra.
Sentou-se demasiado cedo a inventar o mundo. E continuou a inventá-lo com  olhos que o consumiam. Sem nunca lhe perguntar o preço do consumo.
 O mundo sempre lhe foi uma figura de passos demasiado móveis. Lá fora, numa moldura talhada a goiva de longe. Para ela, ali sentada. 
Um dia a morte meteu conversa com ela. Falaram de tudo. Numa sala desarrumada da memória. Ao fundo do corredor, numa casa de geografia  desconhecida. E amores ausentes.
A morte conseguiu convencê-la a levantar-se.
Levantou-se a custo. Contrariada. Pesava-lhe o tempo.
Lentamente e sem pressa, deixou de existir.
Tornou-se matéria volátil.
Uma matéria viciada em solidão.

Sem comentários:

Enviar um comentário